Dra. Josiane Barbosa

Dra. Josiane Barbosa Superintendente na Diretoria Colegiada do SENAI CIMATEC & Vice-reitora da Universidade SENA CIMATEC Engenheira de Materiais | Doutora em Ciência e Engenharia de Materiais pela UFCG De Campina Grande (PB), ex-levantadora de vôlei, Josiane chegou a Salvador aos 23 anos, de ônibus, para uma entrevista que achou ter sido um desastre. Mais de 20 anos depois, lidera na diretoria colegiada da instituição onde começou. Uma conversa de mulher para mulher sobre carreira, liderança e o que ninguém conta.

Palavra que define a trajetória: resiliência

A conta, uma hora, chega

Linha do tempo

Campina Grande (PB): graduação em Engenharia de Materiais e mestrado
2005: chega ao CIMATEC, aos 23 anos, como engenheira e coordenadora do curso técnico de plástico
Gerente da área de materiais
2010: conclui o doutorado em Ciência e Engenharia de Materiais na UFCG
2013–2017: coordenadora do mestrado e doutorado
2017: cria e implanta o Instituto de Tecnologia em Saúde (ITS)
Período na Califórnia, com retorno em 2019
Hoje: superintendente na diretoria colegiada

Como comecei

Antes da engenharia, eu queria ser atleta. Joguei vôlei como levantadora em clubes profissionais e cheguei a fazer peneira para a seleção brasileira. Mas aí vieram a lesão no joelho, as cirurgias e a dificuldade de conciliar treino e faculdade numa cidade sem estrutura para o esporte. Deixei a quadra de lado, mas levei dela o que uso até hoje: cada partida é uma partida nova.

Em 2005, meu professor soube de uma vaga em pesquisa de materiais no CIMATEC. Viajei 12 horas de ônibus até Salvador, peguei mais três ônibus para chegar à entrevista, com o currículo impresso numa pasta com elásticos. Me fizeram umas 30 perguntas e eu respondi duas. Voltei achando que tinha sido um desastre. Quinze dias depois, o telefone fixo de casa tocou: eu tinha passado.

Ninguém planejou (eu também não)

Se você espera que eu conte qual foi meu ponto de virada, não teve. Eu não tracei minha vida para ser executiva, não tive mentor formal nem coach de carreira. Fui sendo convidada e me inserindo nas oportunidades. Quando a área de materiais cresceu, me chamaram para gerenciá-la. Quando o mestrado precisou de coordenação, me chamaram. Depois veio o ITS, depois a Califórnia, depois a superintendência e junto a universidade. Só percebi muito depois, que meu chefe já vinha me preparando sem eu saber.

O que me move é o desafio. Eu penso, organizo, implanto, e quando a roda já gira sozinha, preciso de outra coisa. Sempre vivi em ciclos. Foi assim que eu soube que estava no lugar certo: enquanto tinha um desafio novo na frente, fazia sentido.


Eu vivo de desafio. É isso que me move

Ser mulher na liderança

Nunca vivi situação constrangedora no meu ambiente de trabalho, mas sei que a média não é essa. Na Diretoria Colegiada somos quatro homens e eu. Na hora de decidir, percebo que eles olham por um eixo e eu por outro, e isso é outra formação, outra geração. Já estive em reunião com 14 homens em que eu era a única mulher à mesa.

Ciências exatas ainda não é a primeira opção de quase nenhuma de nós. Quando chego numa escola e pergunto quem quer fazer engenharia, uma menina levanta a mão lá no fundo. Essa mudança é geracional, pode levar décadas. E a gente não precisa estar lá para ser “mais uma”: estamos porque somos capazes, e muitas vezes melhores.

Não vai ser uma mágica.

O que ninguem me contou

Se eu soubesse como era difícil, teria me preparado melhor, então vou te contar: liderar sendo mulher tem um preço mais alto. Você acumula as responsabilidades do trabalho e as da casa. Quando saio da reunião, a janta, a farda limpa e a agenda de casa continuam sendo uma responsabilidade que tomo conta também, mesmo com um excelente parceiro ao lado para dividir. O caminho é solitário. As amizades ficam mais escassas, muita gente se aproxima por interesse, e falta corporativismo entre nós: às vezes as próprias mulheres ficam do outro lado, julgando.

Aprendi errando e observando mulheres que admiro pelo realismo. O divisor de águas foi fazer 40 anos: entendi o que importa, parei de me preocupar com a opinião alheia e passei a escolher quem senta na minha mesa. E eu não quero romantizar. Empoderamento é bonito, mas o dia a dia é duro, e você precisa estar preparada.

Para você que está começando

Não desista. Às vezes o sonho não acontece do jeito que a gente imagina, e a gente quer tudo para ontem. Mas com competência, propósito e resiliência, as coisas chegam, mesmo que demorem. Cuidado com as redes sociais: elas só mostram o lado bom e escondem o que a gente sabe que existe na vida real. Abrace as oportunidades, mesmo quando custam algum sacrifício. Quando você tem ética e valores claros, a vida vai.

Depoimento editado a partir de entrevista concedida à equipe AELLA e revisado por Josiane.

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